terça-feira, 16 de março de 2010

Feliz ano do Tigre

Só teve uma pessoa (fora mamae) que reclamou que eu nao posto mais, entao, vou dedicar o posto a seguir a ela: Dedéia!!!
O que acontece, minha gente é que meu notebook antigo quebrou e eu resolvi esperar um pouco ate comprar um outro. E cá estou, digitando de teclados novinhos.

E, em um mes, muita coisa pode acontecer...

Eu vivi o ano novo chines, que para as pessoas daqui significa mais do que a passagem do ano do calendário ocidental. Apesar de Cingapura seguir o calendário ocidental, é o ano novo chines que tem mais significado para a maioria dos habitantes daqui. Digo a maioria porque nem todos comemoram. Acho que é que nem o carnaval: muita gente comemora, e a parcela da populacao que nao gosta comemora também porque é feriado.

Enfim, nas semanas anteriores ao ano novo chines ja da pra sentir uma grande comoçao na cidade. Tudo gira em volta de presentes/temas/comidas/musicas de ano novo chines. TUDO!Daí voce vai no supermercado comprar papel higienico e alguem te deseja feliz ano novo. No mínimo esquisito para alguem do ocidente como eu. Só sei que depois de alguns "feliz ano novo" até eu ja comecei a entrar no clima...

O bom é que nao só eu e a cidade entramos no clima, como tambem a empresa onde trabbalho e a dona do apartamento onde moro. e já explico o por que: um dos costumes do ano novo chines é uma pessoa mais velha colocar dinheiro em um envelope vermelho e dar para as pessoas mais novas. Nao preciso nem dizer que a empresa resolveu abrir a mao, assim como a dona do ape, né? Mas nao pensem que é muito dinheiro nao, é algo simbólico. Mas achei legal o gesto.

To rica!

Outra coisa bem comum nessa época do ano é as pessoas darem laranjas e doces de presente umas as outras. No trabalho ganhamos laranjas. Em casa ganhamos bolachinhas.

A "virada do ano" eu passei na casa de um amigo chines (nao chines da china, mas daqui de cingapura) que vive com os pais. Foi legal, mas nao foi NADA do que eu estava esperando, com fogos de artificio e todo mundo se abraçando. Sei la, ano novo no ocidente é assim, nao é? Entao, acho que a conclusao que eu cheguei é que aqui é uma mistura de natal, quando as pessoas ficam com suas familias, em casa e se dao presentes com o ano novo, porque tem toda a mistica da passagem, do novo, do ciclo.

Bem, o dia seguinte a "passagem" do ano, resolvi sair para caminhar na cidade e ela estava completamente vazia. Nao tinha nada. Acho que muito se deve ao feriado prolongado, que durou de sexta a terça feira (e que eu, por sinal, nao aproveitei, porque sigo o calendario da Alemanha). O legal é que as comemoracoes do ano novo nao duram apenas um dia. Como disse antes, voce sente na cidade inteira um clima festivo e depois da passagem do ano ainda há festas e comemoracoes.

Uma das coisas que vi na rua, por acaso, foi um desfile de dragoes chineses. O chato é que eu nao tinha máquina. Mas daí a gente vai no amigo gúgou, digita "Chinese New Year Dragon", clica em imagens e... TCHARAN! Mais ou menos o que eu vi aparece.

escola de samba?

No final, percebi que cheguei a conclusoes muito basicas sobre o ano novo chines. Talvez ano que vem devesse estar na China. Quem sabe...



E só pra constar: saldo de mais de um mes sem computador = 4 livros lidos (Demian - Herman Hesse; O evangelho segundo Jesus Cristo - José Saramago; Alice no País das maravilhas e Alice através do espelho - Lewis Carrol), entrar na academia, comprar criado mudo, alguns filmes vistos (The General, The Party, Pulp Fiction, Alice, MUITOS documentarios de arte), ir para duas óperas...
saldo de menos de uma semana COM computador em casa = acordar todo dia as duas da tarde. Ainda bem que eu so começo as tres =)

domingo, 31 de janeiro de 2010

e tudo continuou...

Bem, depois de chegar em casa na sexta a noite, resolvi pesquisar na internet sobre o festival Thaipusam e descobri que o tal festival duraria o dia seguinte inteiro. Mudanca de planos é comigo mesma! Ao invés de ir para o Zoo, resolvi ficar pela vizinhança, já que moro em Little India e o festival é celebrado nesse bairro.

Acordei e fui para um templo. Na entrada vi algo que me foi muito familiar por alguns meses quando estive na Índia: um mundaréu de sapatos deixados do lado de fora do templo, já que nao se pode entrar calçado.
Brechó?
Parei ali perto dos sapatos e descobri que ali nao era a entrada do templo, e sim a saida dos devotos. E novamente, como na sexta a noite, o que eu vi foram as coisas mais loucas da minha vida (superando as de sexta).

Nao tenho como descrever o que era. Eram homens carregando ornamentos em homenagem aos deuses hindus nas costas. Ornamentos que pesam muito (ouvi falar de 15 a 20 quilos). E ornamentos com pequenas lanás perfurando o corpo dos devotos. Sim, o corpo TODO perfurado por lanças, carregando um ornamento de 20 quilos, tendo que andar mais ou menos 4km. A maior devoçao que ja presenciei, sem dúvidas.
ai!
A medida em que cada devoto saía do templo, amigos e/ou familiares batucavam e/ou cantavam/entoavam mantras e o devoto começava a dançar. No portao de saída do templo, um membro da familia pegava um coco, acendia uma vela nele e fazia uma oraçao enquanto "benzia" a pessoa(nao tenho termo menos cristao para isso). Depois, jogava o coco com toda forca na lixeira. E dai começava a caminhada rumo a um outro templo, a mais ou menos 4 km dali. Devo ter visto uns 20, 25 devotos com o corpo furado. Dentre eles dois jovens de uns 14 anos mais ou menos e uma crianca de uns 10 anos.

nada de sangue!
Assim que descobri que era permitido entrar no templo para ver os rituais iniciais, é claro que entrei. Presenciei entao, no meio de uma multidao de devotos com suas familias e turistas com suas maquinas fotográficas, o momento em que um devoto ia ser espetado. Gente, fiquei chocada e me deu vontade de chorar. Com certeza a pessoa sente MUITA dor. Apesar disso, a expressao do devoto que eu acompanhei era de uma mistura de dor com serenidade. E nao vi sangue nenhum. Enquanto alguns familiares enfiavam as lanças no homem, uma mulher rezava e depois dela alguns homens entoavam mantras. Tudo isso misturado a batucadas que outras familias estavam fazendo para outros devotos. É uma coisa hipnotizante. Eu nao teria saído de lá se nao fosse pela minha amiga, que estava passando mal.

devoto sendo espetado

lanças (ou vel)
Sei que muitas pessoas nao aguentariam ver o que eu vi e muitas tambem julgariam quem estava lá participando dos rituais. Eu nao. Eu sou a pessoa mais feliz do mundo por ter tido a oportunidade de presenciar esse festival tao importante na vida de tanta gente. Estou maravilhada com a Ásia. De novo e sempre.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Tinha tudo para ser um dia normal...


Hoje tinha tudo para ser um dia bem normal. Acordei, fui pro trabalho, tive meu Break, trabalhei e resolvi sair pra naiti, já que hoje é sexta.Combinei de sair com uma amiga alemã, um brasuca e uma chinesa. Chegamos no barzinho, era ate legal, mas sabe quando não tem nada de mais?

Assim, pelo cansaço que eu estava, algo tinha que me chamar a atenção. Podia ser musica boa, um cara gato, mas eu estava sentindo falta daquele tchans! Enfim, o tal do tchans não veio e resolvemos, eu e a alemã que mora comigo, ir para casa.

Pegamos um taxi (sim, voltamos de madruga para casa de taxi - não tem busao de noite e o taxi eh extremamente barato - coisa pra outro post) e assim que entramos na avenida principal de Litlle India, que e o bairro onde moro, percebemos que algo acontecia. Do outro lado da rua havia MUITA gente vestida de amarelo com algo em cima da cabeça. Perguntamos ao taxista o que era aquilo e ele disse ser alguma passeata ou procissão (com o singlish dele foi o que conseguimos entender).

Comecei a ficar intrigada com aquele tanto de gente andando com uns vasinhos na cabeça e pedi pro taxista parar. Falei para a alemã que seria melhor seguirmos dali a pé para casa, para tentarmos ver o que estava acontecendo. O relato abaixo está tão confuso e cheio de informações quanto a minha mente na hora em que desci do taxi:

grao-de-bico e arroz de graca. vai ai?

Pessoas vestidas de amarelo e laranja, segurando pequenos vasos em cima da cabeça, entoando mantras e cantando. Pés descalços. Famílias inteiras, juntas em procissão. Crianças, jovens, adultos, velhos, pessoas em cadeiras de roda. Pessoas em transe. Homens e mulheres com a cabeça raspada. Caminhonetes enfeitadas. Homens e mulheres levando pequenos altares em seus ombros. Pessoas fazendo comida na rua. Homens com ganchos perfurando seus corpos, puxando altares em forma de carrinhos. Pessoas com a cabeça pintada de amarelo e com o rosto pintado.Caminhonetes tocando musica a todo volume. Pessoas com as sobrancelhas, língua, bochechas, costas, peito perfurados por enfeites. Pessoas dando comida de graça na rua. Pessoas com limões pendurados no corpo.

ai meu Thapusam!

Sério, essa procissão foi uma das coisas mais impressionantes que eu já vi na minha vida. Não da pra explicar, não consigo mostrar em fotos nem em vídeos. Acho que não da pra sentir nem mesmo tendo visto com meus próprios olhos. Tem que ser Hindu, acreditar e estar la para entender.

Bem, vamos à parte informativa do blog: a procissão faz parte de um festival chamado THAIPUSAM. O Thaipusam é um festival celebrado pela comunidade Tamil (pessoas originárias do estado de Tamil Nadu, na Índia), na lua cheia do mês chamado THAI do calendário Tamil. Esse festival é celebrado tanto na Índia quanto no sudeste asiático. Aqui em Cingapura há uma das maiores celebrações, assim como na Malásia e nas ilhas Mauricio.

a galera fica quietinha, quietinha...

O festival comemora o aniversário de Murugan ou Subramaniam, o filho mais novo de Shiva e Parvati e também comemora a ocasião em que Parvati deu a Murugan uma lança para que ele pudesse acabar com o demônio Soorapadman. (roubado e mal traduzido da WIKIPÉDIA).

Enfim, depois de toda essa explicação consigo entender mais ou menos a procissão. Eu realmente queria começar uma discussão aqui sobre procissões, religiões e rituais, e como em qualquer lugar do mundo temos isso (para citar só os que me lembro agorinha há a peregrinação para Meca, há procissões para Aparecida do Norte, há o caminho de Santiago de Compostela e há até uma procissão que eu já tomei parte, a de Pirapora do bom Jesus – caminhei 40 km de Itu até lá quando tinha uns 14 anos), mas to com muita coisa na cabeça pra fazer isso agora. Ainda to digerindo o que vi/senti.

São cinco e meia da manhã e não consigo dormir em pensar na diversidade cultural do mundo. Sou uma pessoa mais completa e feliz porque tive e tenho a oportunidade de ver o que vi hoje.